Ainda tabu: cidadão Welles no país do carnaval
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Amir Labaki
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O Festival do Rio, encerrado ontem, reafirmou: o Brasil ainda não deu a devida importância ao resgate de “É Tudo Verdade” (It´s All True), o filme inacabado rodado em 1942 no Rio de Janeiro e no Nordeste (Ceará, principalmente) por Orson Welles. Uma bela retrospectiva Welles foi um dos destaques do ano, com preciosidades como seu pout-pourri shakespereano “Badaladas à Meia-Noite” (Chimes at Midnight, 1965) e o pouco visto “Filmando Otelo” (Filming Othello, 1978), mas a rara exibição de “É Tudo Verdade” lembra-nos uma ferida ainda aberta.
A versão projetada pelo evento carioca, realizada em 1993 por Bill Krohn, Michael Meisel e Richard Wilson, representa um excelente trabalho de arqueologia cinematográfica, sintetizando em hora e meia o extenso material que Welles nunca pôde montar. É difícil, porém, não relacioná-la às diversas versões condensadas de outro clássico inacabado, o “Que Viva México!” (1931) de Sergei Eisenstein, que correram mundo, estando mesmo disponíveis no mercado brasileiro de DVD, mas estão longe de esgotar o mistério completo do original.
Mesmo na edição breve corrente, infelizmente não disponível para compra ou locação no Brasil, “É Tudo Verdade” prova que Orson Welles revelou um novo Brasil ao cinema brasileiro assim como o Brasil revelou a Welles uma nova vereda cinematográfica, para além da rígida cadeia industrial dos grandes estúdios. Trata-se, assim, de um elo perdido em ao menos dois campos.
Para os estudiosos de Welles, “It´s All True” flagra-o entre a segunda e catastrófica experiência hollywoodiana, "Soberba" (The Magnificent Ambersons, 1942), e a volta para a ruptura definitiva com o sistema de estúdios, a partir de seus dois mergulhos no policial noir, “O Estranho” e “A Dama de Shanghai” (ambos de 1946). A experiência brasileira de Welles é a antítese de seu tradicional “neo-expressionismo” (Glauber Rocha), um instante de contaminação pelo real ímpar em sua filmografia, adiantando na cena internacional, em quase meia década, várias das lições revigorantes do neo-realismo italiano.
Há algo de premonitório em “É Tudo Verdade” também para a história do cinema nacional. Sua primeira parte brasileira, “Carnaval”, dialoga tanto com a então dominante escola das chanchadas quanto adianta procedimentos pré-cinemanovistas de clássicos como “Rio Quarenta Graus” (1955) e “Rio Zona Norte” (1957) de Nélson Pereira dos Santos.
Por sua vez, "Jangadeiros", a segunda parte, remete a outro marco do pré-Cinema Novo, “Barravento” (1960) de Glauber Rocha. Combinam-se, em Welles como depois em Glauber, as influências de Eisenstein e Flaherty. A dramatização da saga verdadeira de quatro jangadeiros cearenses remete diretamente a “Que Viva México!”, por um lado, e a "Nanook, o Esquimó" (1922) e "O Homem de Aran" (1934), por outro. A fotografia fortemente contrastada do húngaro George Fanto rima com o trabalho contemporâneo de Gabriel Figueroa no México e adianta em uma década o classicismo fotográfico da Vera Cruz paulista.
O projeto original incluía ainda um primeiro episódio mexicano, “My Friend Bonito”, sobre a amizade entre um touro bravio e seu domador, e uma parte final americana, dedicada à vida de Louis Armstrong. Ao passar por aqui no É Tudo Verdade 2002, a maior especialista no filme, Catherine Benamou, recordou como “os quatro episódios, passados em comunidades e regiões distintas, comporiam um mosaico da América em face da modernidade, ilustrando sua diversidade cultural e racial e evocando o seu processo democrático –com ênfase na dignidade do homem trabalhador”.
Benamou frisou ainda como nos arquivos da UCLA, na Califórnia, repousa vasto material ainda não devidamente preservado e editado dos três primeiros episódios. É, claro, patrimônio audiovisual da humanidade, mais especialmente brasileiro. A Cinemateca Brasileira deveria ser o destino deste material, ou ao menos de cópia dele.
Numa época em que se tornaram algo mais generosas as verbas para restauro de clássicos nacionais, parece ainda utópico sonhar com o justo desfecho da “aventura brasileira” (Paulo Emílio) de Welles. Mais de sessenta anos depois da visita de cidadão Welles ao país do Carnaval, “É Tudo Verdade” continua a ser tabu.
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11/10/2003
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