Uma estátua para Afonsinho
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Amir Labaki
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Um dos clássicos menos conhecidos do documentário sobre futebol no Brasil, “Passe Livre” (1974), de Oswaldo Caldeira, finalmente está disponível em DVD (Original Vídeo, R$ 29,90). Muita água rolou desde seu lançamento original por um circuito alternativo, paralelo ao grande mercado das salas de cinema da época, a começar da saudável revogação da “Lei do Passe”, o instrumento que concedia aos clubes o direito absoluto de controlar os destinos de um jogador.
O filme de Caldeira é um libelo contra aquela situação, a partir do estudo de caso de um pioneiro rebelde que conseguiu na justiça sua liberdade profissional como atleta, o meio-campista Afonsinho.
Afonsinho era um craque diferenciado, dentro e fora do campo. Inteligente e articulado, estudante de medicina, revoltou-se contra a tirania dos dirigentes do Botafogo, clube que o revelou, que quiseram obrigá-lo a raspar barba e cortar o cabelo. Detentor do próprio passe, jogou nos anos 1970 no Santos de Pelé, Carlos Alberto, Edu e Clodoaldo e no Flamengo de Zico, encerrando a carreira em 1982 no Fluminense.
Desde a aposentadoria nos campos, longe dos holofotes, o doutor Afonso Celso Garcia Reis dedica-se à Medicina e a projetos sociais no Rio. Para as novas gerações, ele é muito menos lembrado como o armador elegante de perfil guevariano do que pela referência pop na abertura de uma deliciosa canção de Gilberto Gil, “Meio de Campo”, que o homenageia como o “prezado amigo Afonsinho” já na estrofe inicial.
Embalado por uma bela trilha que além de Gil conta com Gal Costa e os Novos Baianos, montado com bossa pelo cinemanovista Gustavo Dahl, “Passe Livre” segue uma estrutura que se alterna entre o resumo da trajetória de Afonsinho e a crítica à mercantilização do futebol. O craque barbudo é inserido numa linhagem de injustiçados dos estádios brasileiros, no qual se destacam breves retratos do goleiro Barbosa (1921-2000), estigmatizado até o fim da vida pelos gols que sofreu na derrota brasileira na final da Copa de 1950, e do aguerrido artilheiro Almir (1937-1973), que de “Pelé Branco” do final dos anos 1950 tornou-se o “Rei da Catimba” na década seguinte, encerrando a carreira de forma melancólica. O exemplo de Afonsinho é contraposto no filme a um conflito similar, mas de resolução muito distinta, que envolveu na época o mesmo Botafogo e Jairzinho, o “furacão” da Copa de 1970. Impedido pelo clube de viajar ao Japão para cumprir um contrato publicitário, Jairzinho recorreu na justiça, foi derrotado, desculpou-se e retomou sua carreira como se nada tivesse acontecido.
Comentando o filme a partir da reação de operários de São Paulo na saída de projeções, Jean-Claude Bernardet sustentou que o esquema Afonsinho herói/Jairzinho anti-herói pretendido por Caldeira era invertido pela leitura dos trabalhadores. O primeiro teria sobre o segundo a vantagem de uma alternativa, a da carreira médica, como fonte de sustento. “A reação desse público desmontou o filme”, defendia Bernardet, frustrando-se assim qualquer tentativa de “metaforização do futebol” para uma reflexão sobre “a situação do operário numa sociedade capitalista”. Mais recentemente, o crítico Luiz Zanin Oricchio apresentou uma leitura mais generosa em seu obrigatório “Fome de Bola: Cinema e Futebol no Brasil” (Imprensa Oficial, 2006). Para Zanin, “Passe Livre” fala de Afonsinho mas “se refere também, de maneira alusiva, a toda situação política do país, com as classes trabalhadoras amordaçadas pela ditadura”. A metáfora para o crítico de “O Estado de S. Paulo” é outra, e “poderosa”: “a do jogador que, em plena vigência da ditadura militar, luta na Justiça pelo direito de usar cabelos compridos e barba – e ganha”.
É neste sentido que hoje como nunca rimam o filme de Caldeira e a canção de Gil. “Fiz a música em sua homenagem para dizer dessa dimensão que eu via nele”, contou Gil a Carlos Rennó em “Todas as Letras”: “a do homem fiel, generoso; o que abdica do trono; o que não brilha como os reis, mas é um sábio da cajado na mão; o sábio que vem visitar o palácio a convite do soberano e trazer novidades, impressões; vem para dizer coisas importantes, interessantes; para trazer luz, sabedoria. Isso tudo associado à imagem do hippie, do drop-out, do cara que jogou para cima as convenções”.
Com sua arte nos campos, Jairzinho muito fez por merecer a estátua dele em tamanho natural que o Botafogo inaugurou no último fim de semana na entrada de seu estádio, o Engenhão. Até por justiça poética, o monumento a Afonsinho é outro, não menos concreto por ser etéreo, presente na liberdade de cada jogador escolher hoje o próprio destino, em cada cantarolar da música de Gil, e na emoção de cada espectador de “Passe Livre”. Fazer um gol nesta partida não é fácil, meu irmão.
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27/08/2010
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