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Oscar 2010: mais é menos
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Amir Labaki
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Nenhuma grande surpresa marcou a lista de indicados para o Oscar, que será entregue em 7 de março próximo. O aumento para dez finalistas ao prêmio de melhor filme, retornando assim à fórmula abandonada sabiamente em 1944, contribuiu para o anticlímax. Há ainda o fato de apenas dois títulos terem chances reais de vitória: o arquifavorito “Avatar” e o thriller “Guerra ao Terror”, ambos com nove indicações.
“Amor sem Escalas”, “Bastardos Inglórios”, “The Blind Side”, “Distrito 9”, “Educação”, “Preciosa”, “A Serious Man” e a animação “Up” são os outros concorrentes na categoria principal. Para alguns deles, as indicações já são o prêmio máximo que conquistarão. Quais? O drama romântico da crise financeira estrelado por George Clooney, a distopia sul-africana e a nova comédia cética dos irmãos Coen.
“Up”, tedioso afora o divertido curta de seus primeiros sete minutos, é uma das barbadas do ano na categoria de melhor animação. “Educação” pode valer o Oscar ao primeiro roteiro adaptado de outro escritor por Nick Hornby. “The Blind Side” deve consagrar, quem diria, Sandra Bullock como melhor atriz.
Já “Bastardos Inglórios”, de longe meu filme preferido do ano passado, correndo por fora, acabou por receber o reconhecimento de oito indicações. Deve receber como prêmio de consolação apenas um merecidíssimo Oscar de coadjuvante para o ator austríaco Christoph Waltz. Pena.
Par certo para Waltz, como coadjuvante feminina, é Mo’nique, uma comediante em seu primeiro grande papel dramático, o da monstruosa mãe de “Preciosa”. Lee Daniels realizou um drama realista à moda antiga a partir de “Push” de Sapphire, um best-seller entre Dickens e Alice Walker. Tudo gira em torno de Preciosa, uma adolescente negra que conheceu o inferno pelas mãos de seus próprios pais.
O vigoroso filme de Daniels, indicado em cinco categorias, conta com uma madrinha poderosíssima: Oprah Winfrey. O engajamento da apresentadora se deu na esteira do imenso sucesso de “Preciosa” no Sundance do ano passado, no qual levou os prêmios principais do júri e do público, alem de um especial para Mo’nique. Mas não deve ser ainda desta vez que Oprah irá beijar seu Oscar.
Haverá lógica mas não justiça se “Avatar” arrebatar mesmo o prêmio principal. O Oscar é afinal uma festa de autocelebração da indústria. James Cameron devolveu as esperanças na rentabilidade do cinema como negócio e reafirmou a potência de renovação tecnológica de Hollywood.
Ainda assim, já não tem como repetir na festa da Academia a quebra dos recordes de “Titanic”, ao contrario do que já fez nas bilheterias mundo afora. Não se perde dinheiro em cinema hoje com poeira para os olhos mas um grande filme é mais que isso, e dramaticamente “Avatar” é desleixado, sisudo e pueril.
Não fosse essa fragilidade dramática, não haveria mais ninguém no páreo, nem mesmo “Guerra ao Terror”. Lançado no festival de Veneza em 2008 e, sem provocar maiores comoções, nas salas americanas em meados de 2009, o filme de Kathryn Bigelow parece ter crescido tardiamente no seio da indústria como uma atrasada “mea culpa” frente a oposição hollywoodiana à guerra no Iraque. É como se, aposentado o vilão (Bush, claro), finalmente fosse possível prantear os heróis recém-descobertos –claro, os militares americanos.
“Guerra ao Terror” chega hoje às telas brasileiras, depois de cumprir um curioso circuito por aqui, com seu lançamento inicial diretamente em DVD e seu acesso até em pay-per-view. É uma versão turbinada da visita à cruenta atividade das tropas americanas no front iraquiano pioneiramente retratada em documentários como “Gunner Palace” (2005) de Michael Tucker e “The War Tapes” (2006) de Deborah Scranton. Paradoxalmente, Bigelow brilha nas sequências de ação, oito missões levadas a cabo por um pelotão especializado no desarme de bombas, e patina nas cenas mais intimistas. O similar mais próximo é “Falcão Negro em Perigo” de Ridley Scott, que lhe valeu uma indicação mas não o Oscar de 2001.
Tudo somado, tenho sérias dúvidas de que James Cameron conquistará seu segundo Oscar de melhor diretor, devendo ser batido por Kathryn Bigelow (aliás, sua ex-esposa), como sinalizou no último final de semana a premiação da Associação dos Diretores de Cinema. Mas será um gesto de afirmação feminista ou de chauvinismo maquiado?
Entre os documentários, é uma honra ver entre os cinco finalistas o vencedor da competição internacional do É Tudo Verdade 2009, “Burma VJ” (VJs de Mianmar), do dinamarquês Anders Ostergaard. Mas o favorito é mesmo “The Cove” (A Enseada), em que o estreante Louie Psihoyos denuncia o massacre de golfinhos no Japão. Em qualquer outro ano, “Food, Inc”, de Robert Kenner, e sobretudo “The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers”, de Judith Ehrlich e Rick Goldsmith, teriam grandes chances. (“Which Way Home”, de Rebecca Cammisa, só completa a lista). Mas o ano parece mesmo de flipper.
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05/02/2010
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